8 de abril de 2012

Let them talk, Hugh

House e o british accent a serviço do blues de New Orleans. 
Epifania em doses cavalares.


Each of us, when our day's work is done, must seek our ideal, whether it be love or pinochle or lobster à la Newburg, or the sweet silence of the musty bookshelves.

— O. HENRY, The Social Triangle

27 de julho de 2011

Filosofia mundana à la Chamfort


A melhor filosofia, em relação ao mundo, consiste em aliar o sarcasmo da graça à indulgência do desprezo.

O homem, no estado atual da sociedade, parece-me ser mais corrompido por sua razão do que por suas paixões. Suas paixões (e aqui me refiro àquelas que pertencem ao homem primitivo) conservaram, na ordem social, o pouco de natureza que nela ainda encontramos.

A sociedade não consiste, como estamos habituados a acreditar, no desenvolvimento da natureza, mas sim na sua decomposição e na sua completa transformação. Trata-se de um segundo edifício construído com os escombros do primeiro. Nele descobrimos seus destroços com um sentimento no qual o prazer confunde-se com a surpresa. É o prazer que gera a expressão ingênua de um sentimento natural, que acaba vazando para a sociedade. Ocorre mesmo de ele agradar mais, se a pessoa da qual esse sentimento escapa for de uma posição elevada, ou seja, mais distante da natureza. Num rei, ele nos encanta porque o rei encontra-se numa extremidade oposta. Ele é um escombro de uma antiga arquitetura dórica ou coríntia num edifício grosseiro e moderno.

No teatro, busca-se o efeito; mas o que diferencia o poeta bom do ruim é o fato de o primeiro querer obter o efeito lançando mão de meios razoáveis, enquanto que ao segundo todos os meios parecem excelentes. Nisso, são como os cavalheiros e os velhacos, que desejam ambos fazer fortuna: os primeiros só empregam meios honestos, e, os outros, toda espécie de meios.

Frequentemente uma opinião, um costume, parece-nos absurdo na primeira juventude e, conforme avançamos vida afora, passamos a ver sentido nele: ele nos parece menos absurdo. Disso deveríamos concluir que certos costumes são menos ridículos? Seríamos levados a pensar que eles foram estabelecidos por pessoas que leram até o fim o livro da vida, e que elas são julgadas por pessoas que, apesar de espirituosas, só leram dele algumas páginas.

É uma bela alegoria, na Bíblia, esta que fala da árvore do conhecimento do bem e do mal e que leva à morte. Esta figura simbólica não significa que, assim que penetramos na essência das coisas, a perda das ilusões conduz à morte da alma, ou seja, ao desinteresse completo por tudo que diz respeito e que interessa aos outros homens?

Não fico mais espantado por ver um homem cansado da fama, do que por ver um outro incomodado com o barulho que se faz na sua ante-sala.

Quantos militares de prestígio, quantos generais são mortos, sem terem transmitido seus nomes à posteridade: nisso foram menos felizes que Bucéfalo, e mesmo que o cão de fila espanhol Berecillo, que devorava os índios de São Domingos e recebia o soldo de três soldados!

É de se desejar a preguiça de um homem mau e o silêncio de um tolo.

Máximas e Pensamentos, de Sébastien-Roch-Nicolas Chamfort (1741-1794).

5 de julho de 2011

Cinemateca


Nossa Música, de Jean-Luc Godard:

Notre musique, 2004
Matar uma pessoa para defender uma idéia não é defender uma idéia, é matar uma pessoa.

— Por que é que as revoluções não são feitas pelos homens mais humanos?
— Porque os homens mais humanos não fazem revoluções; eles estão mais ocupados lendo livros e fazendo bibliotecas.

O Comunismo existiu somente duas vezes durante dois tempos de 45 minutos: quando a Hungria venceu a Inglaterra por 6-3, no estádio de Wembley, em novembro de 1953. Os ingleses jogaram cada um por si; os húngaros jogaram juntos.

Fala-se sempre muito da chave do problema, mas nunca da fechadura.

2 de julho de 2011

Intimidade

Jean-Paul Sartre


Lulu dormia nua não só porque gostava de se acariciar com as cobertas, mas também porque lavagem de roupa custa caro. A princípio Henri protestou: não se deve dormir nu, isto não se faz, é nojento. Acabou, porém, por comodismo, seguindo o exemplo da mulher; ele era inflexível como uma estaca quando se achava no meio de outras pessoas (admirava os suíços e particularmente os genebrinos, achava-os altivos porque eram impassíveis), mas negligenciava as pequenas coisas, por exemplo: não era muito asseado, raramente mudava de cueca; quando Lulu as punha na roupa suja, não podia deixar de observar o seu fundo amarelado à força de roçar contra o rego das nádegas. Pessoalmente, Lulu não se incomodava com a sujeira: dá um ar de intimidade, cria certos sombreados familiares. No côncavo dos cotovelos, por exemplo. Não gostava dos ingleses, de seus corpos sem personalidade, sem nenhum cheiro. Sentia, porém, horror às negligências do marido, porque refletiam um carinho excessivo por si próprio. De manhã, ao acordar, ele se sentia sempre terno, tinha a cabeça cheia de sonhos, e o dia claro, a água fria, o pêlo áspero das escovas lhe faziam o efeito de brutais injustiças.
 
Lulu, deitada de costas, introduziu o dedão do pé esquerdo em uma dobra do cobertor; não era dobra, mas um descosturado, o que a aborreceu: vai ser preciso costurar isto amanhã; continuava, porém, mexendo no tecido, para senti-lo esgarçar-se. Henri não estava dormindo, mas não se mexia. Ele sempre dizia a Lulu que, assim que fechava os olhos, se sentia amarrado por liames fortes e resistentes, não conseguindo sequer levantar o dedinho. Uma grande mosca presa numa teia de aranha. Lulu gostava de sentir contra si aquele grande corpo cativo. Se ele pudesse ficar assim paralisado, seria eu quem cuidaria dele, quem o limparia como a uma criança; de vez em quando virá-lo-ia de bruços, dar-lhe-ia umas palmadas e outras vezes, quando sua mãe o viesse ver, eu o descobriria com um pretexto qualquer, retiraria as cobertas, e sua mãe o veria inteiramente nu. Penso que ela ficaria estática, deve fazer uns quinze anos que não o vê assim. Lulu passou a mão levemente sobre o quadril do marido e o beliscou levemente na virilha. Henri gemeu, mas não fez o menor movimento. Estava reduzido à impotência. Lulu sorriu: a palavra “impotência” fazia-a sempre sorrir. No tempo em que ainda amava Henri, quando ele repousava assim imóvel, a seu lado, ela se divertia em imaginá-lo pacientemente ensalsichado por anõezinhos do gênero daqueles que tinha visto numa estampa, quando, em pequena, lia a história de Gulliver. Sempre chamava Henri de “Gulliver”, e ele gostava porque era um nome inglês, e Lulu tinha então o jeito de uma pessoa instruída; teria preferido, porém, que ela pronunciasse aquele nome corretamente. Como isso me amolava! Se desejava uma moça instruída, devia ter casado com Jeanne Beder, que tem seios em forma de buzina, mas sabe cinco línguas. Quando íamos a Sceaux, aos domingos, eu me aborrecia tanto com sua família, que abria um livro qualquer; havia sempre alguém que vinha olhar o que eu estava lendo, e sua irmãzinha me perguntava: “Está compreendendo, Lucie?...” Ele não me acha culta. Os suíços sim, são gente culta, porque sua irmã mais velha se casou com um, que lhe deu cinco filhos, e além disso eles o impressionam com suas montanhas. Eu não posso ter filhos, é da minha constituição, mas nunca achei correto o que ele faz quando sai comigo; vai a todos os mictórios, e eu sou obrigada a olhar vitrinas enquanto espero, bancando a boba. Quando ele volta, vem repuxando as calças e arqueando as pernas como um velho.
 
Lulu retirou o dedo da fenda do cobertor e agitou um pouco os pés, pelo prazer de se sentir acordada perto daquela carne mole e cativa. Ouviu um gru-gru: um ventre que faz barulho me aborrece porque nunca posso saber se é o seu ou o meu. Fechou os olhos: são líquidos que gorgolejam nas tripas, todo mundo tem isso, Rirette, eu (não gosto de pensar nisso, me dá dor de barriga). Ele me ama, mas não ama minhas tripas; se lhe mostrassem meu apêndice num vidro, não o reconheceria; ele vive a me apalpar, mas se lhe pusessem o vidro nas mãos não sentiria nada intimamente, não pensaria: “isto é dela”; deveríamos poder amar tudo de uma pessoa, o esôfago, o fígado, os intestinos. Talvez não gostemos dessas coisas por falta de hábito; se as víssemos como vemos nossas mãos e nossos braços, talvez as amássemos; é por isso que as estrelas-do-mar devem amar-se melhor que nós; elas se estendem sobre a praia quando faz sol e põem fora o estômago para fazê-lo tomar ar, e todos podem vê-lo; eu me pergunto por onde faríamos sair o nosso, pelo umbigo, talvez. Ela fechou os olhos, e os discos azuis começaram a girar, como na feira, ontem, quando eu atirava flechas de borracha nos discos e as letras se acendiam a cada golpe, formando um nome da cidade; ele me impediu de formar “Dijon”, com sua mania de se encostar às minhas nádegas; detesto que me toquem por trás, desejava não ter costas, não gosto que me façam certas coisas quando não as vejo; eles podem gozar sem que se lhes vejam as mãos; a gente as sente subindo e descendo, mas não pode prever aonde vão, eles olham a gente à vontade, e a gente não os pode ver, ele adora isso; Henri nunca pensou em fazer essas coisas, ele só quer saber de se encostar nas minhas nádegas, e estou convencida de que ele me pega no traseiro de propósito, porque sabe que morro de vergonha de ter um, e o fato de eu ter vergonha o excita, mas não quero pensar em Rirette. Ela pensava em Rirette todas as noites à mesma hora, justamente no momento em que Henri começava a balbuciar coisas sem nexo e a gemer. Mas houve resistência, o outro queria mostrar-se, ela chegou mesmo a ver, num instante, uns cabelos negros e crespos, pensou que ia acontecer e arrepiou-se, porque nunca se sabe até onde a coisa vai; se é só o rosto, ainda bem; isso passa, mas houve noites em que ela não conseguiu fechar os olhos por causa de nojentas lembranças que emergiam à superfície; é medonho quando se conhece tudo de um homem, principalmente aquilo. Henri não é a mesma coisa, posso imaginá-lo da cabeça aos pés, isso me enternece porque ele é mole, tem a pele branca, com exceção da do ventre, que é rosada, ele diz que o ventre de um homem bem-feito, quando ele está sentado, faz três pregas; o seu porém tem seis, só que ele as conta de duas em duas e não quer ver as outras. Ela sentiu uma irritação, pensando em Rirette: “Lulu, você não sabe o que é um belo corpo de homem”. É ridículo, naturalmente, eu sei o que é, ela quer dizer um corpo duro como pedra, com músculos, não gosto disso, Patterson tinha um corpo assim, e eu me sentia mole como uma lagarta quando ele me apertava; casei-me com Henri porque ele era mole, porque se assemelhava a um padre. Os padres, com suas batinas, são macios como as mulheres e parece que usam roupas de baixo. Quando eu tinha quinze anos, queria levantar devagarinho suas batinas para ver-lhes os joelhos e as cuecas, parecia-me estranho que tivessem alguma coisa entre as pernas; com uma das mãos eu pegaria a batina, fazendo a outra escorregar ao longo das pernas, subindo até o lugar em que penso; não é que eu goste assim tanto das mulheres, mas uma coisa de homem, quando está debaixo de uma saia, é delicada, é como se fosse uma grande flor. Na realidade, nunca se pode segurar aquilo; se ao menos ficasse tranqüilo, mas começa a se mexer como um animal, endurece, me dá medo, quando fica duro e teso no ar, é bestial; como é nojento o amor! Amei Henri porque sua coisinha jamais endurecia, não levantava nunca a cabeça, eu sorria, acariciava-a algumas vezes, tinha tanto medo dela como de uma criança; à noite eu pegava essa deliciosa coisinha entre os dedos, ele ficava corado, virava a cabeça para o lado, suspirando, mas aquilo não se mexia, continuava bem quieto em minha mão, eu não o apertava, permanecíamos longo tempo assim, e ele adormecia. Eu então me deitava de costas e pensava em padres, em coisas puras, em mulheres, primeiro acariciava meu ventre, minha barriga bonita e chata, descia as mãos, continuava descendo até sentir prazer; não há quem saiba me dar prazer como eu mesma.
(...)

1 de julho de 2011

Livro do Desassossego [1]


Peristilo

Às horas em que a paisagem é uma auréola de Vida, e o sonho é apenas sonhar-se, eu ergui, ó meu amor, no silêncio do meu desassossego, este livro estranho como portões abertos numa casa abandonada.

Colhi para escrevê-lo a alma de todas as flores, e dos momentos efêmeros de todos os cantos de todas as aves, teci eternidade e estagnação. Tecedeira, sentei-me à janela da minha vida e esqueci que habitava e era, tecendo lençóis para o meu tédio amortalhar nas toalhas de linho casto para os altares do meu silêncio, e eu ofereço-te este livro porque sei que ele é belo e inútil. Nada ensina, nada faz crer, nada faz sentir. Regato que corre para um abismo-cinza que o vento espalha e nem fecunda nem é daninho – pus toda a alma em fazê-lo, mas não pensei nele fazendo-o, mas só em mim que sou triste e em ti que não és ninguém.

E porque este livro é absurdo, eu o amo; porque é inútil, eu o quero dar; e porque de nada serve querer to dar, eu to dou...

Reza por mim o lê-lo, abençoa-me de amá-lo e esquece-o como o Sol de hoje ao Sol de ontem (como eu esqueço aquelas mulheres nos sonhos que nunca soube sonhar).

Torre do Silêncio das minhas ânsias, que este livro seja o luar que te fez outra na noite do Mistério Antigo!

Rio de Imperfeição dolorida, que este livro seja o barco deixado ir por tuas águas abaixo para acabar mar que se sonhe.

Paisagem de Alheamento e de Abandono, que este livro seja teu como a tua Hora e se ilimite de ti como da Hora de púrpura falsa.

28 de março de 2011

Uma frase ao telefone

Liberato Vieira da Cunha


W. caminhava na silente companhia de sua solidão quando avistou na calçada oposta alguém que parecia ser Y. Os cabelos longos e dourados, o porte alto, o corpo magnífico eram os mesmos de 30 anos antes. Há sempre na vida de um homem a mulher inesquecível. Ele jamais deletara da memória as reuniões dançantes de sábado em que formavam um par constante, as longas conversas sobre tudo e nada no pequeno jardim da casa dela, os bailes na Reitoria, em que buscavam a cumplicidade do terraço às escuras, a tarde em que, num chalé de Atlântida, imergiram em entrega e posse, o fim amargo do namoro, resultado direto das intrigas de um rival, conspiração que só foi descobrir muito depois e já não havia volta.

W. apressou o passo, docemente inquieto como um garoto, mas Y. evaporou-se. Simplesmente sumiu de seu alcance, desapareceu, talvez num dos imensos prédios de escritórios, talvez no labirinto do shopping da quadra seguinte. Aquilo lhe doeu. À noite, fechou-se no laboratório e mergulhou em lembranças ternas. Vira-a raríssimas vezes pela eternidade de três décadas. Todas tinham sido ocasiões formais: um casamento, no qual os lugares na igreja e na recepção estavam previamente marcados; uma missa de mês, que não costuma ser um acontecimento romântico; uma estréia de gala, em que ela sentou umas 12 fileiras à frente, bem guardada pelo dono. Em cada um desses encontros, cumprimentaram-se de longe, mas ele não deixou de notar o olhar azul demorando-se nele uns instantes a mais, quem sabe por descuido, pela surpresa, ou para que refletisse: W. já não é aquele rapaz esguio, W. tornou-se um senhor grisalho; ou: estes trajes escuros não combinam com idos amores; são como uma espécie de réquiem. Um dos filhos veio pedir-lhe emprestado o carro, ele estendeu-lhe absorto as chaves. Acabava de recordar o Fairlane vermelho do pai dela e o que havia sucedido no banco de trás certa madrugada, numa época extinta, em que as pessoas estacionavam junto à Redenção ou no belvedere de Santa Teresa, sem o mínimo risco de assalto. Ele pediu a São Cristóvão que o filho não fosse vítima de nenhum seqüestro relâmpago e aí concentrou-se numa circunstância que o tempo vinha apagando: buscara em muitas mulheres os traços, o perfume, um jeito com que Y. sacudia lentamente a cabeça e dizia sorrindo: 10 cruzeiros pela lista completa dos teus pensamentos.

Ele correu a um monte de guias telefônicos, que agora lhe chegavam aos magotes, mas no geral de endereços comerciais. Havia um antigo, residencial, ele achou o número do dono de Y. Acrescentou os novos algarismos de preceito, mas atenderam numa locadora de vídeo. Discou para informações, escutou músicas e publicidade, ao cabo de três minutos uma Valdirene recitou palavras decoradas de cordialidade e indagou em que podia servi-lo. Me serve meus 17 anos, me serve o melhor pedaço de meu passado, me serve Y. no vestido com motivos marinhos, me serve a mulher de minha vida, nua e trajada de desejo. Limitou-se a pedir o telefone do engenheiro K.X.Z. Anotou cuidadosamente e ligou.

Ouviu do outro lado da linha a voz encantadoramente rouca de Y.
– Sou W. – falou, e não descobriu mais nada para dizer.
E então, feito música, lhe chegou uma frase:
– Dez cruzeiros pela lista completa dos teus pensamentos.

19 de fevereiro de 2011

Coisas que perdemos pelo caminho


Uma mulher tem que ter
qualquer coisa além da beleza
qualquer coisa de triste
qualquer coisa que chora
qualquer coisa que sente saudade
…Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
de se saber mulher
feita apenas para amar
para sofrer pelo seu amor
E para ser só perdão

13 de fevereiro de 2011

Rousseau e o Arlequim


O homem do mundo está inteiramente na sua máscara, não estando quase nunca em si mesmo, ele é sempre estrangeiro e está pouco à vontade quando é forçado a entrar em si. O que ele é não é nada; o que ele parece ser é tudo para ele.


Qual é o talento do comediante? A arte de imitar, de adotar um caráter diferente do que se tem, de parecer diferente do que se é, de se apaixonar com serenidade, de dizer coisas diferentes das que se pensam com tanta naturalidade como se realmente fossem pensadas, e, enfim, de esquecer seu próprio lugar, de tanto tomar o de outro.

28 de novembro de 2010

À meia-noite levarei sua alma


NECRONOMICON


Segundo os ocultistas, o Necronomicon ou o Livro dos Nomes Mortos, é uma compilação de "nomes proibidos” feita pelo árabe Abdul Alhazred em Damasco, em 750. O livro é uma longa lista de entidades cósmicas (demônios, se você preferir) extremamente poderosas que habitaram a Terra antes do homem. A simples pronúncia dos seus nomes é suficiente para invocá-las. Tente você mesmo: Cthulhu, Nyarlathotop, Azathoth.

O livro teria sido traduzido para o latim e, mais tarde, queimado pela Inquisição, mas, apesar de tudo, sobrevivido. Parece história de filme B, né? Mas é mais complicado. O Necronomicon é, na verdade, uma criação literária do escritor americano H. P. Lovecraft (1890-1937), que queria deixar suas histórias góticas ainda mais bizarras. Nunca existiu, nunca foi traduzido, nada. Os ocultistas, no entanto, dizem que o Necronomicon existe sim e que Lovecraft conhecia o livro, mas não o inventou. Uma versão em inglês, traduzida por John Dee (1527-1608), místico e matemático que viveu na corte de Elizabeth I, teria sobrevivido longe da Inquisição. O aventureiro-boêmio-místico-picareta ALEISTER CROWLEY (1875-1947) também afirmava possuir um exemplar em cima do criado-mudo.

Mas, afinal, Lovecraft criou ou não criou a porcaria do livro? Sim e não, se aceitarmos a teoria de Jorge Luis Borges. Segundo Borges, ao criar o Necronomicon, Lovecraft o tornou real. E, portanto, todas as criaturas que estão dentro dele. Se você pronunciou alguns daqueles nomes, o problema é seu.


Fonte: Conspirações, de Edson Aran.

26 de setembro de 2010

O demônio do meio-dia



Sobre a depressão, Solomon começa afirmando que: “Quando ela chega, degrada o eu da pessoa e finalmente eclipsa sua capacidade de dar ou receber afeição. É a solidão dentro de nós que se torna manifesta e destrói não apenas a conexão com outros, mas também a capacidade de estar apaziguadamente apenas consigo mesmo. Embora não seja nenhum profilático contra a depressão, o amor é o que acolchoa a mente e a protege de si mesma. Medicamentos e psicoterapia podem renovar essa proteção, tornando mais fácil amar e ser amado – e é por isso que funcionam”.

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12 de setembro de 2010

Som & fúria


 O bem de um livro reside em ser lido. Um livro é feito de signos que falam de outros signos, os quais por sua vez falam das coisas. Sem um olho que o leia, um livro é portador de signos que não produzem conceitos, e portanto é mudo. Esta biblioteca nasceu talvez para salvar os livros que contém, mas agora vive para os sepultar. Por isso tornou-se fonte de impiedade. O despenseiro disse que traíra. Assim fez Berengário. Traiu. Oh, que dia horrível, meu bom Adso! Cheio de sangue e de ruína. Por hoje já chega. Vamos nós também a completas, e depois vamos dormir.
 

Umberto Eco – O Nome da Rosa

20 de agosto de 2010

A Mão do Macaco

W.W. JACOBS


I


Lá fora, a noite era fria e úmida, mas na pequena sala de estar de Laburnam Villa, as gelosias estavam cerradas e o fogo brilhava alegremente. Pai e filho estavam jogando xadrez, e o primeiro, que possuía ideias sobre jogo, envolvendo uma mudança radical de tática, punha o rei em tão desesperados e desnecessários perigos que provocou comentários até da velha senhora de cabelos brancos, que estava fazendo, placidamente, crochê perto do fogo.


– Escuta esse vento! – disse o senhor White, que, tendo notado um erro fatal quando já era tarde demais, desejava evitar, com habilidade, que o filho o notasse também.
– Estou escutando – disse o outro, observando atentamente o tabuleiro, ao mesmo tempo que estendia a mão. – Xeque!
– Estava achando muito difícil que ele viesse esta noite – disse o pai, com a mão erguida sobre o tabuleiro.
– Mate! – prosseguiu o filho.
– Isso é o que tem de pior, viver assim tão afastado! – vociferou o senhor White, com súbita e inesperada violência -; de todos os lugares idiotas, lamacentos e fora de mão para se morar, este é o pior. O caminho é um atoleiro e a estrada, um rio. Não sei o que essa gente pensa. Acho que, porque somente duas casas da estrada estão alugadas, entendem que não tem importância.
– Não te importes, querido – disse-lhe a esposa, conciliatoriamente –; talvez ganhes a próxima partida.


O senhor White ergueu bruscamente a vista, mesmo em tempo de interceptar um olhar de compreensão, trocado entre mãe e filho. As palavras morreram-lhe nos lábios, e escondeu um sorriso contrafeito, na barba rala e grisalha.
– Aí está ele! – exclamou Herbert White, ao ouvir o portão bater com estrondo e pesados passos, que vinham em direção à porta.

O velho levantou-se com solicitude hospitaleira, e, enquanto abria a porta, puderam ouvi-lo lastimando-se do tempo, com o recém-chegado. Este também se lastimou, de maneira que a senhora White disse: "Chut! Chut!" e tossiu de leve, quando o marido entrou no aposento, seguido por um homem alto e corpulento, de olhos salientes e faces rubicundas.
– Sargento-major Morris – disse, apresentando-o.


O major trocou apertos de mão, e, tomando a cadeira oferecida junto ao fogo, observou, com satisfação, que o anfitrião trazia uísque e copos e punha uma pequena chaleira de cobre no fogo.
Ao terceiro copo, seus olhos ficaram mais brilhantes e começou a falar, enquanto o pequeno círculo da família olhava, com agudo interesse, aquele visitante de terras longínquas, que encostava os ombros robustos no espaldar da cadeira, falando de cenas estranhas e feitos denodados, de guerras e pestes e de povos exóticos.


– Vinte e um anos disto – disse o senhor White, acenando, com a cabeça, para a esposa e o filho. – Quando partiu, era um belo moço, no armazém. Agora, olhem para ele.
– Não parece ter-se dado muito mal – observou a senhora White delicadamente.
– Eu gostaria de ir à Índia, também – disse o velho cavalheiro –, só para ver como aquilo é, sabem?
– Foi melhor ficar por aqui mesmo – retrucou o major, abanando a cabeça. Pousou o copo vazio e, suspirando de leve, sacudiu-a outra vez.
– Gostaria de ver aqueles velhos templos, e faquires, e pelotiqueiros – insistiu o velho. – O que era que ia começar a contar-me no outro dia, a respeito de uma mão de macaco, ou coisa que o valha, Morris?
– Nada – respondeu o soldado, muito depressa. – Pelo menos, nada que valha a pena ouvir-se.
– Mão de macaco? – indagou a senhora White, com curiosidade.
– Bem, apenas o que se poderia chamar magia, talvez – respondeu o major, de maneira vaga.


Seus três ouvintes curvaram-se para a frente, interessados. O visitante, alheadamente, levou o copo vazio aos lábios e depois tornou a pousá-lo. O anfitrião encheu-lho de novo.
– À simples vista – disse o major, remexendo no bolso – é apenas uma pequena mão comum, seca e mumificada.


Tirou qualquer coisa do bolso e exibiu-a. A senhora White recuou, com uma careta, mas o filho, pegando no objeto, examinou-o com curiosidade.
– E que é que há de especial nela? – perguntou o senhor White, tomando-a das mãos do filho e pousando-a sobre a mesa, depois de examiná-la.
– Possui um encantamento, que lhe foi posto por um velho faquir – explicou o major –, um homem muito velho. Queria mostrar que o destino segue a vida dos homens e que aqueles que interferem com ele o fazem para seu próprio mal. Pôs-lhe um encantamento, para que três homens distintos pudessem satisfazer, cada um, três desejos.


Suas maneiras eram tão impressionantes que os ouvintes tinham a consciência de que seus risos alegres soavam um pouco falsos.
– Bem, e por que não formula três desejos, senhor? – perguntou Herbert White, inteligentemente.
O soldado olhou-o, da maneira que um homem de meia-idade olha para a mocidade presunçosa.
– Já formulei. . . – disse, devagar, e o seu rosto corado empalideceu.
– E obteve, realmente, que esses três desejos se realizassem? – perguntou o senhor White.
– Obtive – respondeu o major, e o copo tilintou de encontro aos seus dentes brancos.
– E alguém mais já desejou?
– O primeiro homem também satisfez seus três desejos, sim. . . – foi a resposta. – Não sei quais foram os dois primeiros, mas o terceiro foi a morte. Foi assim que obtive a mão.


Seu tom era tão grave que um silêncio caiu sobre o grupo.
– Se já obteve os seus três desejos, não lhe serve para mais nada; então, Morris – disse o velho, por fim -, para que a conserva?

O soldado abanou a cabeça.
– Capricho, suponho – disse, devagar. – Tive uma vaga ideia de vendê-la, mas não creio que o faça. Já causou infortúnios demais. Além disso, ninguém a compraria. Alguns acham que é uma história fantástica, e os que acreditam alguma coisa dela, querem experimentar primeiro e pagar-me depois.
– Se pudesse formular outros três desejos – perguntou o velho, fitando-o atentamente –, fa-lo-ia? 

– Não sei – respondeu o outro -, não sei.

Pegou na mão, e, balançando-a entre o indicador e o polegar, jogou-a de súbito no fogo. White, com um pequeno grito, curvou-se e tirou-a.
– É melhor que a deixe queimar-se – sentenciou o soldado, solenemente.
– Se não a quer, Morris – pediu o velho –, dê-ma.
– Não farei isso – respondeu o amigo, com rabugice. – Atirei-a ao fogo. Se a quiser guardar, não me censure pelo que possa acontecer. Jogue-a no fogo de novo, como um homem de juízo.


O outro abanou a cabeça e examinou atentamente sua nova aquisição.
– Como se faz? – perguntou.
– Segura-se levantada, com a mão direita, e faz-se o pedido em voz alta – disse o major – mas previno-o... contra as consequências.
– Parece coisa das Mil e uma noites! – exclamou a senhora White, enquanto se levantava e começava a preparar tudo para a ceia. – Não achas que poderias desejar quatro mãos para mim?


O marido tirou o talismã do bolso e, então, os três desataram a rir, enquanto o major, com um ar de susto no rosto, o segurava pelo braço.
– Se quer formular um pedido – disse-lhe, severamente –, faça-o de maneira inteligente.


O senhor White deixou cair de novo o talismã no bolso, e, chegando as cadeiras, conduziu o amigo à mesa. Com o entretenimento da ceia, o objeto foi em parte esquecido, e, depois, os três ficaram sentados, escutando, atentos, uma segunda série das aventuras do soldado na Índia.

– Se a história a respeito da mão do macaco não for mais verdadeira do que as outras que ele nos esteve contando – disse Herbert, quando a porta se fechou às costas do hóspede, apenas em tempo para este apanhar o último trem –, não conseguiremos grande coisa com ela.
– Deste-lhe alguma coisa por ela, meu velho? – perguntou a senhora White, olhando para o marido, com atenção.
– Uma bagatela – respondeu ele, corando de leve. – Não queria aceitar, mas obriguei-o. E insistiu de novo comigo para que a jogasse fora.
– Não faça isso! – exclamou Herbert, com pretenso horror. – Ora essa! Vamos ficar ricos, famosos e felizes. Deseje ser imperador, papai, para começar; depois, não poderá ser dominado pela esposa.


Correu em volta da mesa, perseguido pela indignada senhora White, armada de uma vassoura. O senhor White tirou a mão de macaco do bolso e olhou para ela, indeciso.
– Não sei o que hei de desejar, esta é a verdade... – disse, lentamente. – Parece-me que tenho tudo o que quero.
– Se liquidasse a hipoteca da casa, seria completamente feliz, não é verdade? – sugeriu Herbert, pousando-lhe a mão no ombro. – Pois bem, deseje duzentas libras, então; é justamente o que falta.


O pai, sorrindo, meio envergonhado da própria credulidade, ergueu o talismã, enquanto o filho, com ar solene, que um piscar de olhos à mãe desmentia, sentava-se ao piano e fazia soar alguns acordes majestosos.
– Desejo ter duzentas libras – pediu o velho, em voz alta.


Uma bela ressonância do piano saudou aquelas palavras, interrompida por um grito assustado do velho. O filho e a esposa correram para ele.
– Mexeu-se!... – exclamou ele, com um olhar de receio para o objeto que jazia no chão. – Quando formulei o desejo, contraiu-se-me na mão qual uma cobra.
– Bem, não vejo o dinheiro... e aposto que nunca o verei – atalhou o moço.
– Deve ter sido impressão tua, meu velho – disse a esposa, olhando para ele com ansiedade.

O marido abanou a cabeça.
– Não importa, porém. Não aconteceu nada de mau, mas levei um choque assim mesmo.


Sentaram-se novamente, junto ao fogo, enquanto os dois homens acabavam de fumar seus cachimbos. Lá fora, o vento estava mais forte do que nunca, e o velho teve um sobressalto nervoso ao som de uma porta batendo no primeiro andar. Um silêncio insólito e deprimente pesou sobre os três, e prolongou-se até que o casal de velhos se levantou para recolher-se.
– Espero que encontre o dinheiro amarrado em um grande maço, no meio da cama  gracejou Herbert, ao curvar-se para dizer-lhes boa noite – e qualquer coisa terrível agachada em cima do guarda-roupa, espiando-o, enquanto o senhor se apossa da fortuna mal ganha.

O senhor White permaneceu sozinho no escuro, observou as brasas e viu faces formarem-se nelas. A última era tão horrível e simiesca que a encarou espantado. Parecia tão vívida que provocou nele um sorriso constrangido; pegou de sobre a mesa uma vasilha com água e despejou-a no braseiro. Sem querer, tocou a mão do macaco e sentiu um leve calafrio; esfregou as mãos nas vestes e foi para a cama.


II

Na manhã seguinte, na claridade do sol de inverno iluminando a mesa do café, Herbert riu-se do susto dos pais. Havia um ar de saudável banalidade no aposento que faltava na noite anterior, e a pequena mão de macaco, suja e enrugada, estava pousada sobre o aparador, com um pouco caso que não demonstrava grande fé nas suas virtudes.

– Suponho que todos os velhos soldados são iguais – disse a senhora White. – Que ideia, a nossa, de dar ouvidos a tais contrassensos! Como poderiam realizar-se simples desejos, hoje em dia? E, se pudessem, como haviam de fazer-te mal duzentas libras, meu velho?
– Podiam cair-lhe do céu na cabeça – chasqueou o frívolo Herbert.
– Morris contou que as coisas aconteciam tão naturalmente – disse o pai – que se poderia, querendo, atribuí-las a mera coincidência.
– Bem, não vá gastar o dinheiro todo antes que eu esteja de volta – recomendou Herbert, levantando-se da mesa. – Receio que se transforme em um mesquinho avarento e que tenhamos de desconhecê-lo.


A mãe riu-se, e, acompanhando-o até a porta, observou-o enquanto seguia pela estrada abaixo, e depois, voltando à mesa do café, divertiu-se muito às custas da credulidade do marido. O que não a impediu de precipitar-se para a porta, quando o carteiro bateu, e nem tampouco de resmungar qualquer coisa sobre majores reformados, de hábitos biliosos, quando verificou que o correio lhe trazia apenas uma conta do alfaiate.
– Herbert vai dizer mais algumas pilhérias, espero, quando voltar – disse ela, quando se sentavam para jantar.
– Imagino que sim – concordou o senhor White servindo-se de cerveja –, mas, seja como for, aquela coisa mexeu-se na minha mão; isso eu posso jurar.
– Pensaste que se moveu – observou a velha senhora, meigamente.
– Digo que se mexeu! – replicou o outro. – Não resta a menor dúvida. Eu tinha... o que foi?


A esposa não respondeu. Estava observando os misteriosos movimentos de um homem, lá fora, que, espreitando de maneira indecisa para a casa, parecia estar tentando resolver-se a entrar. Em conexão mental com as duzentas libras, notou que o estranho estava bem vestido e usava uma cartola de seda, brilhante e nova. Três vezes parou ao portão, mas, depois, se afastou de novo. Da quarta vez, parou com a mão pousada nele, e, com súbita resolução, abriu-o e caminhou em direção à casa. A senhora White, no mesmo instante, levou as mãos às costas e, desatando apressadamente os cordões do avental, colocou aquela útil peça de roupa sob a almofada da sua cadeira.

Trouxe o estranho, que parecia pouco à vontade, para dentro do aposento. Ele olhava furtivamente para a senhora White, e escutava, com ar preocupado, enquanto a velha senhora pedia desculpas pela aparência da sala, e pelo sobretudo do marido, um agasalho que, geralmente, ele reservava para o jardim. Ela esperou, tão pacientemente quanto o seu sexo o permitia, que o homem desembuchasse o que tinha para dizer, mas, a princípio, ele conservou-se num silêncio embaraçado.
– Pediram-me... para vir aqui – disse, por fim, e curvou-se para tirar um fiapo de algodão das calças. – Venho de parte de Maw & Meggins.

A velha senhora sobressaltou-se.
– Que foi? – perguntou, com a respiração alterada. – Aconteceu alguma coisa a Herbert? Que é? Que é?

O marido interpôs-se.
– Vamos, vamos, minha velha – disse, apressadamente. – Senta-te, e não tires conclusões antecipadas. Não é portador de más notícias, estou certo, senhor – e observava o outro atentamente.
– Sinto muito. . . – começou o visitante.
– Está ferido? – perguntou a mãe.

O visitante curvou-se, confirmando.
– Gravemente ferido, mas já não sofre coisa alguma.
– Oh, graças a Deus! – exclamou a velha senhora, juntando as mãos. – Graças a Deus, por isso. Graças...


Interrompeu-se de súbito, ao perceber o sinistro significado da afirmativa do outro e viu a terrível confirmação dos seus receios na cara compungida que ele fez. Suspendeu a respiração, e voltando-se para o marido, menos vivo em compreender do que ela, pousou a mão trêmula na dele. Houve um longo silêncio.
– Foi colhido por uma máquina – disse o visitante por fim, em voz baixa.
– Colhido por uma máquina – repetiu o senhor White, de maneira vaga. – Sim.


Ficou sentado, olhando confusamente pela janela; e, tomando a mão da esposa entre as suas, apertou-a como costumava fazer nos velhos tempos em que se namoravam, quase quarenta anos atrás.
– Era o único que nos restava – disse, voltando-se gentilmente para o visitante. – É duro.

O outro tossiu, e, levantando-se, caminhou lentamente até à janela.
– A firma encarregou-me de transmitir-lhes a sua sincera simpatia pela grande perda que sofreram – disse, sem voltar a olhar. – Peço-lhes para compreenderem que sou apenas um empregado e que estou obedecendo a ordens recebidas.


Não houve resposta; a face da anciã estava branca, os olhos vítreos, a respiração mal audível; no rosto do marido, havia uma expressão que devia ser semelhante à do seu amigo major ao entrar pela primeira vez em ação.
– Devo dizer-lhes que Maw & Meggins negam qualquer responsabilidade – continuou o outro. 
 Não admitem qualquer obrigação, mas, em consideração aos serviços prestados por seu filho, desejam oferecer-lhes certa importância em dinheiro, a título de compensação.
O senhor White deixou cair a mão da esposa, e, pondo-se em pé, fitou o visitante com um olhar horrorizado. Seus lábios secos balbuciaram a palavra:
– Quanto?
– Duzentas libras – foi a resposta.


Inconsciente do grito da esposa, o ancião sorriu debilmente, estendeu as mãos feito um homem cego, e caiu, qual um farrapo, inerte, no assoalho.


III

No vasto cemitério novo, a umas duas milhas de distância, os anciãos enterraram o morto querido e voltaram para a casa, agora imersa em sombras e silêncio. Acontecera tudo tão rapidamente que, a princípio, mal podiam compreendê-lo, e tinham ficado em um estado de expectativa, como se alguma coisa mais devesse acontecer  alguma coisa que aliviasse aquela carga demasiado pesada para os seus velhos corações suportarem. Mas os dias se passaram e a cruel expectativa cedeu lugar à resignação  a resignação irremediável dos velhos, às vezes erroneamente chamada apatia. Às vezes, mal trocavam uma palavra, porque agora não tinham sobre que falar, e seus dias eram longos e enfadonhos.

Foi cerca de uma semana depois daquilo que o ancião acordando de súbito, uma noite, estendeu a mão e verificou que se achava sozinho na cama. O quarto estava em trevas e vinha da janela um som de soluços abafados. Sentou-se na cama e escutou.
– Volta - disse ele, com ternura. – Vais ficar com frio.
– Mais frio estará sentindo meu filho – respondeu a anciã, e soluçou mais alto.


O som dos soluços morreu nos ouvidos dele. A cama estava quente e, seus olhos, pesados de sono. Dormitou um pouco, agitado, e depois adormeceu, até que um súbito grito selvagem da esposa o acordou em sobressalto.
– A mão do macaco! – gritava ela, selvagemente. – A mão do macaco!
Ele despertou, alarmado.
– Onde? Onde está? Que foi que aconteceu?


Ela veio cambaleando pelo quarto, em direção a ele.
– Quero-a – disse, calmamente. – Tu não a destruíste?
– Está na sala, na prateleira – respondeu ele, muito admirado. – Por quê?

Ela chorava e ria-se ao mesmo tempo e, curvando-se, beijou-o na face.
– Só agora me lembrei disso – disse, histericamente. – Por que não me lembrei antes? Por que não te lembraste tu?
– Lembrar de quê?
– Dos outros dois desejos – respondeu ela, rapidamente. – Só formulamos um.
– E não foi o bastante? – perguntou ele, com violência.
– Não! – exclamou ela, triunfalmente. – Formularemos mais um. Vai lá embaixo, traze-a depressa, e manifesta o desejo que teu filho esteja vivo de novo.


O homem sentou-se na cama e afastou as cobertas de sobre os membros trêmulos.
– Santo Deus, estás louca! – exclamou, aterrado.
– Vai buscá-la – insistiu ela. – Vai buscá-la e pede. Oh, meu filho, meu filho!
O marido riscou um fósforo e acendeu a vela.
– Volta para a cama – disse, irresolutamente. – Não sabes o que estás dizendo.
– Obtivemos a realização do primeiro desejo – disse a anciã, com fervor –; por que não havemos de obter o segundo?
– Uma coincidência... – gaguejou o ancião.
– Vai buscá-la e pede! – gritou a anciã, trêmula.

O velho homem agitou-se, e falou para ela, a voz comovida:
– Ele já está morto há dez dias e, ainda mais, há algo que não quis que soubesses... só consegui reconhecê-lo pelas roupas. Se a cena era, então, demasiadamente horrível de se ver, o que não será agora?
– Traze-o de volta! – gritou novamente a anciã, e arrastou-o em direção à porta. – Achas que terei medo da criança que criei?


Ele desceu, no escuro, tateou o caminho para a sala e depois para o aparador. O talismã estava no seu lugar, e um horrível medo de que o desejo não formulado trouxesse o filho mutilado à sua presença, antes que ele pudesse fugir do aposento, apoderou-se do seu espírito. Susteve a respiração, quando viu que perdera a direção da porta. Com a testa úmida de suor, caminhou às apalpadelas em volta da mesa, e foi-se arrastando, ao longo da parede, no estreito corredor, com aquela coisa nojenta na mão.

Até o rosto da esposa pareceu-lhe mudado, quando entrou no quarto. Estava branco e expectante, e, para seu receio, parecia ter um ar sobrenatural. Teve medo dela.
– Pede! – gritou ela, com voz forte.
– É uma tolice inútil – esquivou-se ele.
– Pede! – repetiu a esposa.

Ele ergueu a mão. 
– Quero meu filho vivo novamente.

O talismã caiu no assoalho e o velho fitou-o, estremecendo. Depois, deixou cair-se, tremendo, em uma cadeira, enquanto a esposa, com os olhos ardendo, se dirigia à janela e levantava a gelosia.

Ficou sentado até sentir-se enregelado de frio, olhando de vez em quando para a figura da anciã, espreitando para fora pela janela. O coto da vela, que ardera até abaixo do anel do castiçal de porcelana, lançava sombras oscilantes sobre o teto e as paredes, até que, com uma palpitação mais forte do que as outras, extinguiu-se. O ancião, com indizível sensação de alívio pelo fracasso do talismã, voltou à cama, e, um minuto ou dois após, a anciã veio, silenciosa e apática, para junto dele.

Nenhum dos dois falou e ambos ficaram deitados silenciosamente, escutando o tique-taque do relógio. Um degrau da escada estalou e um camundongo assustado correu ruidosamente por dentro da parede. A escuridão era opressiva; depois de ficar algum tempo deitado, reunindo coragem, o marido pegou na caixa de fósforos e, riscando um, desceu as escadas para buscar uma vela.

No último degrau, o fósforo apagou-se, e ele parou para acender outro, mas, naquele momento, uma batida tão leve e furtiva que mal era audível, soou na porta da rua.Os fósforos caíram-lhe das mãos. Ficou imóvel, com a respiração suspensa, até que a batida se repetiu. Então, voltou-se e correu velozmente até o quarto, fechando a porta atrás de si. Uma terceira batida ressoou pela casa.
– Que foi isto? – exclamou a anciã, sobressaltando-se.
– Um rato – disse o ancião, em voz trêmula. – Um rato. Passou por mim, nas escadas.


A esposa sentou-se na cama, escutando. Uma batida forte ressoou pela casa.
– É Herbert! – gritou ela. – É Herbert!
Correu para a porta, mas o marido colocou-se diante dela e, agarrando-a pelo braço, segurou-a com força.
– Que vais fazer? – sussurrou, asperamente.
– É meu filho, é Herbert! – gritou ela, lutando mecanicamente. – Tinha-me esquecido de que eram duas milhas de caminho. Por que me seguras? Solta-me! Tenho de abrir a porta.
– Pelo amor de Deus, não o deixes entrar! – disse o ancião, tremendo.
– Tens medo do teu próprio, filho! – exclamou ela, debatendo-se. – Deixa-me ir! Já vou, Herbert, já vou!


Houve outra batida, e mais outra. A anciã, num súbito arranco, libertou-se e saiu correndo do quarto. O marido seguiu-a até ao patamar e chamou-a insistentemente, enquanto ela corria escadas abaixo. Ouviu a corrente de segurança ser retirada e a lingueta da chave abrir-se, rangendo. Depois, a voz da anciã, áspera e palpitante.
– O ferrolho! – gritou, alto. – Desce, não consigo soltá-lo!


Mas o marido estava de gatas, arrastando-se ferozmente pelo chão, à procura da mão do macaco. Se pudesse ao menos encontrá-la, antes que aquela horrível coisa lá de fora entrasse! Uma verdadeira saraivada de batidas repercutiu pela casa, e ele ouviu o arrastar de uma cadeira, que a esposa estava colocando junto da porta. Ouviu, ainda, o ruído do ferrolho ao ser aberto lentamente; no mesmo instante, achou a mão do macaco, e, freneticamente, bradou seu terceiro e último desejo.

As batidas pararam de súbito, embora o seu eco inundasse, ainda, a casa. Ouviu a cadeira sendo arrastada para trás e a porta abrir-se. Um vento frio encanou pelo vão das escadas, mas o longo e sonoroso lamento de decepção e agonia da esposa deu-lhe coragem para descer até onde ela estava, e abrir a porta por trás dela. O lampião, que bruxuleava em frente, mostrou-lhe a estrada, calma e deserta.

5 de agosto de 2010

Mil anos atrás desabou na Terra o planeta de Rinceau


por Alexandre Soares Silva


I. Prólogo (com galinhas)


Mil anos atrás desabou na Terra o planeta de Rinceau, feito de vitrais, se espatifando durante a noite na cidade de Lyon. As pessoas acordaram com o barulho de um planeta inteiro de vidro caindo nos seus telhados e, saindo para a rua, descobriram que pisavam em milhares de cacos de vidro, que só quando o sol nasceu foi possível ver que eram de cores variadas: algumas ruas estando cobertas de cacos vermelhos, outras de amarelos, verdes, azuis, e grisaille. Vacas e cabras, e alguns bêbados, e coitado um mendigo com bócio, que dormiram aquela noite ao relento, amanheceram mortos com pedaços de vidro enfiados nos pescoços, nas costas, no mencionado bócio, nos couros cabeludos, nas nucas, debaixo das pálpebras. O maior pedaço encontrado tinha o tamanho de uma bola de basquete e representava o focinho de um cavalo, marrom contra folhagem verde clara. Estava fincado no peito de um ferreiro que havia, infelizmente, dormido debaixo do telhado inacabado da sua casa na Croix Rousse. E se estamos relembrando compungidos as vítimas históricas dessa tragédia, me deixe mencionar as doze galinhas que morreram de susto com o barulho todo, seus coraçõezinhos explodindo quietamente dois ou três segundos depois da grande explosão de vidro: Paulina, Frangina, Paola, Piolina, Piccolina, Fantine, Martine, Berthe La Poule, Brigida I e Brigida II, a pequena Tommasina e a inesquecível Lola Pamplemousse, com seu famoso requebradinho e seu cocoricó sensual de cigana.

26 de maio de 2009

Drummond



Vomitar este tédio sobre a cidade
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.


Fonte: C. Drummond de Andrade, in A flor e a náusea.

19 de abril de 2009

Caxangá, o retorno


CLÁUDIO MORENO


Se eu comparasse este jornal às cidades do interior que conheci na infância, esta coluna seria o café junto à praça, ponto central em que nós, filólogos amadores, nos reunimos nas manhãs de sábado para conversar sobre o idioma (amador, aqui, vai no sentido original de quem ama uma atividade e sente prazer em exercê-la). Como minha vocação é mais para o diálogo do que para o monólogo, aproveito, sempre que possível, as achegas que os leitores enviam sobre os temas aqui publicados. Em certos casos, elas são abundantes – especialmente naqueles artigos em que confesso não ter encontrado uma explicação satisfatória para o uso de alguma palavra ou expressão, como ocorreu com "veado" e, agora, com "caxangá".

Agradeço aos que escreveram para lembrar a carreira literária do vocábulo, que figura nos poemas O Motorneiro de Caxangá, de João Cabral do Melo Neto (mencionado por Duilio Bêrni) e Evocação do Recife, de Manuel Bandeira (mencionado por Moacir Xavier). Não poucos informaram que caxangá também aparece em topônimos espalhados por todo o Brasil (é nome de rio, de localidade, de bairro, de avenida, de igarapé, etc.) - mas isso não ajuda a decifrar o enigma dos escravos que "jogavam caxangá". Outros, por sua vez, não contribuíram em nada e ainda me fizeram desconfiar de uma leitura muito apressada da coluna anterior, pois escreveram para dizer que encontraram o termo no dicionário e que ele designa... adivinhem! Um tipo de siri ou caranguejo! Boneca Teresa!

Como estamos no café da praça, era inevitável que algum pau-d’água subisse numa cadeira e entoasse, para alegria geral, o samba do filólogo doido. Segundo ele (suspeito que seja um tremendo gozador), "a aparente musiquinha infantil é, na verdade, uma ode ao homossexualismo. A cantiga vem dos acampamentos militares espartanos, conhecidos por incentivar namoros entre os soldados (!). Jó era um famoso aristocrata (não aquele da Bíblia), amante de Péricles (!)" – e por aí vai ele, derramando uma torrente de asneiras, atropelando, na passagem, toda a obra de Tucídides e de Plutarco. Mas o celerado continua: "O verso Escravos de Jó jogavam caxangá significava que os escravos sexuais de Jó faziam brincadeiras entre eles. Caxangá, em grego vulgar arcaico [Credo!], era uma dança sensual, vinda da Turquia, em que os órgãos sexuais dos dançarinos se tocavam". Do "grego vulgar arcaico" eu até gostei, como piada, mas ainda não consegui entender como é que esta sumidade conseguiu juntar a Turquia, Esparta e Atenas no mesmo balaio da História... Os leitores já devem ter percebido o desfecho disso tudo: o "tira, bota, deixa o Zé Pereira entrar" seria exatamente o que parece ser (entendam Zé Pereira como mais um nome popular daquilo que Luzia levou na horta), enquanto o "guerreiros com guerreiros fazem zigue zigue zá" significa que uns ficam passando os outros nas armas – alternadamente, é claro.

Depois do delírio, finalmente alguma coisa de útil: a leitora Inês Sorgato, de Farroupilha, me informa que sua avó, quase centenária, dizia que caxangá era um jogo praticado por pescadores em dias festivos: formada uma roda de jogadores, "um siri era lançado de um para o outro, vencendo aquele que conseguisse ficar ileso até o final, sem ter os dedos ou as mãos feridas pelas tenazes do bicho. Essa brincadeira era imitada pelas crianças, que jogavam com uma bucha de pano no lugar do siri". A ideia (que falta me faz este acento!) parece muito plausível, embora nada explique por que este jogo, se realmente existiu, ficou invisível para os etnólogos e antropólogos que descreveram os jogos e as diversões populares do nosso país.

Finalmente (o melhor sempre fica por último), Carlos Tadeu Koetz, que se declara nosso "leitor assíduo", cansado de encontrar sempre os mesmos significados para caxangá (siri, gorro de marinheiro, etc.), voltou sua atenção para os escravos de Jó e – bingo! Terminou achando um artigo assinado por Yeda Antonita Pessoa de Castro, especialista em cultura afro-brasileira, que esclarece uma parte do enigma: a letra não fala do Jó do Velho Testamento (o que parecia, realmente, ser uma nota falsa numa cantiga de escravos), mas de njó, palavra do Banto que significa "casa, mais o conjunto de seus moradores". Por oposição aos escravos do eito, os escravos de jó – com minúscula, portanto – eram os escravos domésticos, os quais, exatamente por viverem na casa senhorial, foram os agentes que mais contribuíram para a herança africana que todo brasileiro compartilha, seja nos hábitos familiares, na linguagem, na música, na culinária, na religião e, como não poderia deixar de ser, nos folguedos infantis.

Caxangá


CLÁUDIO MORENO


Um leitor que mora no outro lado do Atlântico pede uma informação que a mim também anda fazendo falta. Diz ele, na sua saborosa sintaxe lusitana: "Vai perdoar a minha ignorância, mas gostava que o Professor me dissesse o que significa a palavra caxangá na cantiga de roda Escravos de Jó, que aprendi no curso de teatro que frequento". Pois não há o que perdoar, amigo, pois vieste bater à porta de alguém que também não sabe. Há muito ando no rastro deste vocábulo, mas sempre acabo entrando em algum beco sem saída...

Segundo consta no Houaiss, o caxangá é simplesmente um dos nomes para o nosso tradicional siri, vizinho do peixe e primo da lagosta; secundariamente, também pode designar uma espécie de gorro de marinheiro. Só isso. Como estás a ver, nenhum dos dois se encaixa nos escravos de Jó que jogavam caxangá. Para piorar, a etimologia fornecida no final do verbete é digna de manicômio: o termo viria do Tupi caá-çangá, que significa "mata extensa"! Antes que tu, tão distante deste nosso exótico mundo tropical, te ponhas a indagar o que tem a ver com isso o siri, ou o gorro, ou os escravos de Jó, aviso-te que a informação provém do confusíssimo Vocabulário Tupi-Guarani-Português, de Silveira Bueno, autor que às vezes sai com uma ideia que parece tirada da unha do pé. Ele defende, por exemplo, que o brasileiríssimo "tá", que usamos para concordar, não é a forma reduzida de está, mas sim um advérbio de origem indígena! Acho que mais não preciso dizer.

Aproveitando que o Google faz uma varredura em mais de trinta milhões de páginas em Português, procurei caxangá, caxengá, caxingá, (depois experimentei todas elas, trocando o X por CH), e não encontrei nada que fizesse sentido como um tipo de jogo. Um desses anônimos da internet levantou, acho eu, um ponto interessante: trata-se de escravos de Jó - portanto, de um personagem da Bíblia, exótico ao Brasil e às etnias indígenas e africanas que formaram nosso povo, o que pode ser um indício de que devemos buscar a origem dessa cantiga em outras línguas ou culturas.

Além disso, é impossível explicar como é que um jogo chamado caxangá só aqui seja mencionado, nunca tendo sido descrito pelos antropólogos e etnólogos que estudaram e estudam as nossas tradições populares. Talvez a investigação possa progredir se imaginarmos que caxangá, aqui, é siri mesmo, e que o vocábulo alterado pela tradição tenha sido exatamente o jogavam. Pode ser que a canção usasse um outro verbo qualquer (juntavam, etc.), que terminou sendo substituido por jogar; pode ser também que o jogavam, aqui, não se refira a "praticar um jogo", mas sim a "lançar" – os escravos lançavam os caxangás no cesto, ou na testa, sei lá.

Se queres saber, isso me parece uma daquelas letras que não tem propriamente sentido, misturando vocábulos reais com vocábulos inventados ou modificados apenas pelo amor da sonoridade e da rima. Foi o que aconteceu com "a tonga da mironga do cabuletê", que não significa nada em língua alguma – ao menos era isso o que Vinícius informava a quem vinha lhe perguntar. Como estávamos em plena da ditadura, no entanto, muitos preferiram acreditar que o poeta tivesse escondido, por trás dessas palavras africanas, uma ofensa ao governo militar. Na internet, onde tudo é possível, corre a lenda (discretamente estimulada pelo parceiro sobrevivente do poeta) de que a tradução seria algo como "o cabelo do c* da mãe", dito em nagô!

É claro que, no contexto, a "tonga da mironga do cabuletê" não é coisa boa, não. A letra termina com os versos "Vou lhe rogar uma praga / Eu vou é mandar você/ Pra tonga da mironga do cabuletê" – mas temos de convir que qualquer expressão colocada ali, naquele lugar, teria uma inegável conotação pejorativa. Lembro que nos tempos de ginásio costumávamos usar a expressão "vai pra planfa que te lamblanfa", nas situações em que era impossível empregar o genuíno "puta que pariu" – e tenho certeza de que os leitores devem conhecer várias outras expressões como essa, que não significam nada, especificamente, mas dizem tudo. A "tonga da mironga" deve ser algo similar.

Assim mesmo, fui conferir no indispensável Novo Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes, a melhor obra que temos sobre africanismos em nosso idioma. Lá encontrei: (1) tonga (do Quicongo), "força, poder"; (2) mironga (do Quimbundo), "mistério, segredo"; (3) cabuletê (de origem incerta), "indivíduo desprezível, vagabundo". Como vês, são vocábulos que existem, mas provenientes de línguas diferentes, com significados que não têm relação alguma com a música (muito menos com a fantasiosa versão de "cabeludos (literalmente) palavrões em nagô"). Vinícius, com o ouvido que só os poetas têm, simplesmente os escolheu por sua sonoridade e combinou-os numa expressão sem valor semântico, mas de alto poder sugestivo.

15 de março de 2009

Quando domingo era a “primeira feira”


É de João Paulo II a observação de que a língua portuguesa é a única a preservar os nomes cristãos dos dias da semana: segunda-feira, terça-feira etc.: In Lusitano sermone verba similia reperiuntur (Carta apostólica Dies Domini, Nota 22). De acordo com o espírito pastoral do papa Gregório Magno (morto em 604), o cristianismo podia fazer concessões em aspectos acidentais para a conversão dos povos bárbaros, e assim a Páscoa cristã em inglês e alemão leva o nome de uma divindade pagã: Easterl Oster.

Do mesmo modo, os nomes dos dias da semana em outras línguas europeias remetem a divindades pagãs/planetárias, latinas ou bárbaras. Segunda-feira é o dia da lua (lunes, lunedi, lundi, monday, montag); terça é dedicada a Marte; quarta, a Mercúrio (ou a Odin, wednesday); quinta, a Thor (thursday) ou a Júpiter/Jove, ao trovão (Donnerstag); sexta, a Vênus ou Freya. O sábado e o domingo preservam em algumas línguas nomes cristãos ou são dedicados a Saturno (saturday) ou ao Sol (sonntag, sunday).

Mas o que têm nossas feiras (segunda, terça etc.) de cristão? Feria em latim é a palavra para "festa". Como faz notar o teólogo Josef Pascher: para a liturgia, todo dia é dia de festa e, por isso, a liturgia chama o dia comum (que não é comum: é sempre de festa) de feria...

Festa porque o culto cristão – o sacrifício de Cristo, a Santa Missa – se realiza em meio à criação: toda a criação é em cada missa – por Cristo, com Cristo e em Cristo – oferecida ao Pai. Assim a liturgia fala em feria, em festa, porque, em vez das superstições dos astros, celebra a Cristo.

Comentando o Salmo 93 (En. In Ps. 93, 3), S. Agostinho diz: "o primeiro dia depois do sábado é o domingo, dia do Senhor; o segundo é a secunda feria, à que os profanos chamam Lunae diem; a tertia feria, diem illi Martis; a quarta feria é o que os pagãos chamam de dia de Mercúrio (...).

S. Tomás de Aquino ensina (Super Ev. Io. cp 20 lc 1) que o domingo é a "primeira feira", prima feria, por causa da Páscoa: assim como o Gênesis começa com o dia, a Páscoa em que principia o mistério da nova criatura e se renova a face da terra é o Dia, a Feria.

O labirinto do fauno



Você bate em vão com essa aldrava, essa cabeça de cão em cobre, gasta, sem relevos, semelhante à cabeça de um feto canino dos museus de ciências naturais. Imagina que o cão lhe sorri e larga logo o seu contato gélido. A porta cede ao levíssimo empurrão de seus dedos, e antes de entrar olha pela última vez sobre os ombros, franze as sobrancelhas porque uma longa fila parada de caminhões e automóveis chia, apita, solta a fumaça insana de sua pressa. Você tenta inutilmente reter uma única imagem desse mundo exterior indiferente.

Fecha a porta do vestíbulo atrás de si e procura penetrar na escuridão dessa ruela coberta – pátio, porque você pode sentir o musgo, a umidade das plantas, as raízes apodrecidas, o perfume entorpecedor e espesso. Você procura em vão uma luz que o guie. Procura a caixa de fósforos no bolso de seu casaco, porém essa voz aguda e alquebrada o adverte de longe:

– Não... não é necessário. Peço-lhe. Ande treze passos para a frente e encontrará a escada à sua direita. Suba, por favor. São vinte e dois degraus. Conte-os.


Carlos Fuentes – Aura

26 de fevereiro de 2009

Arquétipo ou Marcas mnêmicas












Pã ou Pan, deus grego dos pastores e rebanhos.
Tornou-se, entre os poetas e filósofos, uma das grandes divindades da Natureza.

Seu culto originou-se na Arcádia, espalhou-se pela Grécia e chegou a Roma, onde Pã foi identificado ora com Fauno, ora com Silvano, deus das matas. De sexualidade brutal, sua aparição poderia provocar um medo "pânico". Representado com chifres, cauda e pés de bode, e uma flauta, ele protegia os rebanhos e se divertia com as ninfas.

A imagem de Pã está associada à loucura, ao pânico, à epilepsia e também à masturbação.

Pã se mostra nas poluções noturnas, nos pesadelos, na loucura, no estupro (como metáfora para o desvirginamento da psique), nos encontros eróticos, na sexualidade desviante, e na dificuldade de estabelecer vínculos.